Relatorio dum caminhante

Travessia Estreia, Primavera 2009:
Ao fim do mundo, de Aljezur ao Cabo S. Vicente.

Hoje, dia 17 de Março de 2009, começa uma nova aventura, a saber: Uma burricada algarvia. Que nos levará desde o Vale das Amoreiras, a cerca de 3km a leste de Aljezur até à ponta de S. Vicente A companhia será a da Sofia von Mentzingen e da Gisela. Seremos os três da vida airada.
Por volta das 17h cheguei ao Vale das Amoreiras, propriedade de uns von Mentzingen com cerca de 50ha. Situa-se num longo vale no fundo do qual corre uma ribeira. Tem várias casas, uma das quais é o antigo monte. Nas redondezas habitam bastantes alemães.
É curioso ver como uns, os locais, partem sem olhar para trás e os outros, principalmente alemães, ficam e instalam-se em total encantamento. Tudo começou na década de setenta, obedecendo ao espírito hippie. Actualmente são mais os reformados. O facto é que estas comunidades estão bastante bem organizadas e activas. Só para dar um exemplo, quando cá cheguei ia começar uma sessão de ioga.
Fui dar um belo passeio a pé, para começar a desenferrujar e apreciar as vistas. Dei logo de caras com duas perdizes e encontrei uma torranja. Ao chegar ao monte instalei-me numa cadeira trasantlântica a acompanhar o anoitecer e o despertar das estrelas.
Estou no meu quarto, ao lado da cozinha, donde provém um delicioso cheiro. Estou com fome, aquela fome gulosa.
E segue a burricada. Partimos então do Vale das Amoreiras em direcção ao Vale da Telha, onde ficaremos na Pousada da Juventude. Lá fomos, com o Gecko, o meu burro, O Romano, o burro da Gisela e o Jovem e atrevido Quico, o burro da Sofia. Nada de especial a assinalar, a não ser as magníficas paisagens por montes e vales.
Em contrapartida beneficiámos de um excelente almoço na Craveira, preparado pela Vreni, a saber: entrada- gaspacho de pepino com alho, deliciosamente fresco, a seguir quiche de espinafres e outra de soja e tomate, no fim queque de amêndoa e mousse de kiwi. Para regar o todo a escolha passava por chá aromático com canela, vinho branco de produção própria e água da fonte. O sítio muito romântico, frondoso, com um lago onde mergulhámos os pés para os refrescar…
Uma pequena sesta e aí vamos nós
Depois de chegar à Arrifana, de tomar um duche, caminhámos um pouco até ao restaurante Pôr do Sol, onde nos esperavam umas belas douradas grelhadas.
E assim se passam belos dias
Tínhamos deixado os burros num descampado na noite anterior. Pois bem como os deixámos assim os encontrámos. Depois de os escovar e dar de beber lá partimos para mais uma etapa, desta vez até à Bordeira. O dia acabou por ser bastante comprido, percorremos mais de vinte quilómetros, estava tudo cansado. Mas lá que valeu a pena valeu. As paisagens da Costa Vicentina são espectaculares.
No meio do percurso, esperava-nos o Christoph, de mesa com toalha, se faz favor. Uma bela salada mista, uma bem temperada salada de batata com ovo cozido e para terminar maçã e pêra cozida. O todo coroado por um café. Ah, claro para regar a festança, um tinto de Borba, o Mata Cabras. Já que estávamos na terra delas.
Na Bordeira ficámos na Cunca, de um casal austro- italiano. Sítio agradável, bem arranjado, com óptimas camas.
Para não fugir à regra, um jantar farto, composto por entradas de azeitonas bonzai, tomate seco frito, pasta de azeitona e patê de sardinha. Seguiu-se uma lasanha clássica, infelizmente lá mais para o morno. Em contrapartida e logo a seguir uma excelente cavala em papillote temperada por cubinhos de limão, alho e azeite e ainda azeitonas. Bem, uma delícia! Para terminar, um doce que me pareceu ser de alfarroba, com amêndoas. Claro que havia bebidas, incluindo um vinho tinto
No dia seguinte, sexta-feira 20 de Março de 2009, deixámo-nos ficar até às onze da manhã, depois de ter tomado um lauto pequeno-almoço.
Seguimos pelas arribas até à praia do Amado, coisa de hora e meia. Fomos acompanhados por um jovem casal e os seus dois filhotes.
Soltámos o Gecko e o Quico. O Romano ficou preso, história de não se afastarem muito de nós. Foi uma festa: ora rebolo eu, ora rebolas tu.
Para nós o pique-nique preparado pelo casal austro-italiano, ele austríaco, ela italiana.
Pelo caminho tínhamos parado um pouco na Bordeira. Um êxito retumbante, uns porque se lembravam dos tempos em que ao fim do dia apareciam pelos caminhos, convergindo para a aldeia, os burricos carregados de mimos da horta, de lenha para o lume ou de qualquer outra coisa necessária. Outros porque se encantavam com a visão romântica de burros em caravana.
Fim da linha nas Pedralvas, uma aldeia em recuperação para fins turísticos. O nosso destino específico era o da casa da Ute, na encosta oeste do vale. Um conjunto bem simpático, com gente simpática. Estamos à espera do jantar.
Depois de descansar e de apreciar as vistas do longo vale onde se encontra a aldeia da Pedralva, instalámo-nos numa casinha em madeira, onde nos esperava uma farta mesa, posta com uma deliciosa lasanha de legumes.
Depois dos chás, conversa e apreciação das fotografias do dia, fomos cada um, à vez, tomar o seu duche. E caminha com eles.
Como de costume, no dia seguinte saltámos cedo da cama, passámos pelo ritual de higiene, tomámos um excelente pequeno-almoço.
Depois de ter escovado os burrinhos, dar-lhes de beber e ver se estava tudo bem com os cascos, assuntos a tratar todos os dias, avançámos pelo vale fora uns tantos quilómetros.
Saímos da estrada de terra pela qual tínhamos seguido, virámos à direita, atravessámos uma ribeira e começámos a subir pela encosta do vale. A paisagem variava entre as abertas, com vista espraiada e as matas de eucaliptos ou de pinheiros. Com mais vida as de pinheiros. Parece que o eucalipto seca a vida onde cresce.
Ao fim de umas três horas de caminhada chegámos ao cimo da encosta, onde começa a planície que se estende até Vila do Bispo, Pontas de Sagres e de S. Vicente. Paragem para todos descansarem e reconfortarem-se. Nós, os humanos, com fruta, bebidas e outros mimos. Eles, os burrinhos, com a bela pastagem que nos rodeava. Fim do descanso passados uns vinte minutos.

Ziguezagueando pelos campos, depois de atravessar a estrada nacional que liga as Alfombras a Vila do Bispo, lá seguimos até às praias da Correama e do Castelejo. Pelo meio comemos o nosso pique-nique.

Entre as duas praias há pedras, lajes rochosas e sobe e desce das ondas na praia. O Romano, o burro mais velho e experiente foi à frente, para mostrar o caminho aos outros. Com vagar lá fomos avançando. Quase no fim da parte mais rochosa, o Quico, o burro mais novo, empancou. Não queria avançar mais. A Gisela já não sabia o que fazer. O que o malandro queria era a companhia da Sofia, género: mamã, mamã, socorro! Mal a Sofia se aproximou resolveu logo ir para frente.

Na praia do Castelejo há um café-restaurante, ou como agora se usa dizer, um apoio de praia. Tivemos direito a uma paragem, para nos retemperar e preparar para o resto da jornada.
Depois de voltar a arrear os burrinhos, fomos subindo durante uns bons quilómetros, até estarmos de novo em terreno plano. A paisagem selvagem, salpicada aqui e acolá por ruínas de montes. Alguns, poucos, casais onde só se via gente de alguma idade. Um ou outro metia conversa, que girava à volta dos burros e dos tempos passados.
Quando o Sol se ia aproximando da linha do horizonte, nas nossas costas, avistámos o depósito de água de Vila do Bispo: Passada meia hora, entrávamos na povoação. Uma certeza, não passámos despercebidos. O nosso alojamento ficava do outro lado, logo tivemos que atravessar de uma ponta à outra. Era um apartamento confortável.

Depois de descansar um pouco, toca a acomodar os burrinhos nos estábulos do campo da feira. Cada um no seu. Nós de volta ao apartamento, duche e toca a andar até ao Eira de Mel, para um excelente jantar. Digno dos melhores gourmets. Satisfeitos mais do que o suficiente e zonzos de tanta bondade, só nos restava enfiar no vale de lençóis, à espera do dia seguinte.
Após termos cumprido os vários rituais que marcaram a nossa jornada, o pequeno-almoço, as higienes, tratar dos burros arrancámos para a última etapa da nossa aventura, que nos levaria até à ponta de S. Vicente.
Os montes e vales sucediam-se, com maior diversidade de paisagens, pois ora nos encontrávamos em terreno bravio, onde pontificavam as urzes e as estevas pagãs ( que não têm as cinco manchas escuras representando as chagas de Cristo ), acompanhadas por um grande número de flores e outras plantas. Grandes manchas de chorões, planta alienígena que pode pôr em risco muitas outras espécies indígenas, pela sua agressividade.
Eram quase duas da tarde, chegámos triunfalmente à ponta de S. Vicente. Tivemos direito a champanhe, discursos e fotografias. Cumprimos os nossos propósitos.
A Sofia e eu próprio montámos respectivamente o Romano e o Gecko para percorrer os três ou quatro quilómetros que nos separavam do Vigia, restaurante onde recuperámos as forças gastas nesta última etapa. No fim até bebi um medronho, coisa rara.
Lá estavam os transportes, dos animais e das pessoas. Acabou. Mas ficou a vontade de fazer mais coisas destas. Pelo meu lado darei o máximo de publicidade.


E assim se vai de burricada
De Aljezur até S. Vicente
De uma assentada
Ficámos todos contentes

Primeiro até à Arrifana
Fomos lidando com os companheiros
Foi tudo muito bacana
Por sermos todos porreiros

Seguiu-se a Bordeira
Continuámos o caminho
A escolha foi certeira

Em Penalva lá estava o nosso ninho
Vila do Bispo da perceveira
S. Vicente, o triunfo com bom vinho

Miguel de Lemos Peixoto




Um comentário:

Amigo do Cavalo disse...

Este diario abriu-me o apetite de ir junto aos burricos caminhando ao lado do meu Viriato por esses vales e montes e porque não praias? ...Depois acampar ou pernoitar em turismo rural. Têm pacotes para quem leva o seu "burrito"?
Um abraço
Mario Jorge Caetano